Fonoaudiólogos, neuropsicólogos, neurologistas, psiquiatras, foniatras, pessoas com gagueira e seus familiares, anotem esta informação fresquinha: o medicamento baclofeno pode ajudar pacientes com este distúrbio – também conhecido cientificamente como gagueira persistente do neurodesenvolvimento (GPND) – a falar com mais fluência. Foi o que revelou uma descoberta acidental feita por pesquisadores responsáveis por um ensaio clínico que tinha como objetivo inicial avaliar os efeitos do baclofeno em alcoólatras que queriam livrar-se da dependência do álcool.

Um dos pacientes que participaram do estudo tinha, além do vício em álcool, GPND. Ao receber o medicamento, o paciente viu sua gagueira amenizar sensivelmente. O efeito foi confirmado com a retirada subsequente do medicamento – quando o paciente parou de tomar o remédio, a gagueira retornou. O relato da descoberta foi feito por cientistas holandeses em um artigo na revista médica BMJ Case Reports. Os autores alertaram que o resultado precisaria ser confirmado em ensaios clínicos mais abrangentes, mas acreditam que tenham realmente descoberto um novo tratamento para a gagueira, elencando inclusive razões biológicas plausíveis para explicar suas observações.

O baclofeno é um relaxante muscular usado para tratar a espasticidade causada por condições como esclerose múltipla e doenças da medula espinhal. Ele age como um agonista em receptores GABA-B, que são encontrados nas mesmas áreas do cérebro em que estão localizados os neurônios dopaminérgicos mesolímbicos. A ativação desses receptores leva a uma redução da quantidade de dopamina liberada nessa região, levando a uma queda no desejo de ingerir álcool.

No caso relatado pelos pesquisadores, o paciente era um senhor de 61 anos que bebia regularmente 2 a 3 litros de vinho por dia, e que admitia ter tido problemas com álcool por 20 anos. Talvez como subterfúgio ao constrangimento causado pela gagueira, ele atribuía sua dificuldade de fala simplesmente a uma inabilidade em encontrar as palavras corretas para se expressar em holandês, que não era sua língua nativa.

Durante o ensaio, ele recebeu doses crescentes de baclofeno ao longo de 10 semanas, até atingir 120 mg ao dia. No momento em que a dose diária atingiu 90 mg, seus médicos começaram a perceber que ele tinha parado de gaguejar. Na dose máxima (120 mg), o paciente queixou-se de sonolência, musculatura lenta e pernas pesadas. A medicação foi então suspensa. Após suspensão do baclofeno, o paciente voltou ao seu antigo nível de consumo de álcool e a gagueira reapareceu. Recomendou-se então que ele continuasse o baclofeno em uma dose diária de 90 mg. Com essa prescrição, ele conseguiu ficar longe do álcool por um período prolongado, e a gagueira desapareceu outra vez. “Este caso ilustra a eficácia potencial de um tratamento com altas doses de baclofeno para pacientes com dependência de álcool”, escreveram os autores, acrescentando que a droga pode se tornar também uma opção inédita de tratamento para a gagueira.

Os pesquisadores concluíram o artigo citando explicações biológicas plausíveis para sua descoberta, uma das quais é que a tensão muscular seria um fator na cronificação da gagueira e que as propriedades relaxantes do baclofeno atuariam sobre a musculatura respiratória, do pescoço e da face. Além disso, alguns estudos indicaram que o baclofeno reduz a ansiedade em pessoas dependentes do álcool, o que também ajudaria a reduzir a ansiedade antecipatória associada à gagueira. Outro fator mencionado pelos pesquisadores é que o baclofeno reduz indiretamente a produção de dopamina na via mesolímbica, cujos níveis mais elevados estariam associados a uma hiperativação de regiões subcorticais do cérebro, com uma consequente redução de perfusão sanguínea em regiões corticais fundamentais para a produção de fala, como a área de Broca.

Para mais informações, acesse: BMJ Case Reports – Speaking fluently with baclofen?

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