É raro encontrar um livro que possa ser recomendado com igual entusiasmo tanto para profissionais da área da pesquisa quanto da área da prática clínica, mas a esplêndida obra O Espectro das Afasias Epilépticas: da Epilepsia Rolândica à Síndrome de Landau-Kleffner é sem dúvida um livro que preenche todos os requisitos para tal recomendação.

O espectro das afasias epilépticas – da epilepsia rolândica (mais moderada) à síndrome de Landau-Kleffner (mais grave)

O tema é profundamente relevante para profissionais da área das neurociências (neurologistas, neuropsicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos, etc.), por tratar da relação, ainda pouco explorada, entre epilepsias infantis e cognição, especialmente as funções de linguagem. Esse é um assunto que fascina por abarcar uma série de questões desafiadoras, por exemplo: por que algumas crianças regridem e deterioram depois de um período normal de desenvolvimento cognitivo, perdendo habilidades de fala e linguagem que já tinham? Qual é a relação entre afasias do neurodesenvolvimento e epilepsias – a segunda condição causa a primeira, ou são consequências separadas de uma causa subjacente comum? Podemos prever quais crianças vão recuperar as habilidades perdidas e quais vão cronificar? Pode uma síndrome epiléptica focal causar um tipo de afasia expressiva capaz de afetar de forma seletiva apenas a fluência motora da fala?

Tão necessária quanto o esclarecimento dessas questões é a oferta precoce de um tratamento que não ignore a causa base da condição. No entanto, há várias características das afasias epilépticas que tornam seu reconhecimento uma tarefa particularmente difícil. A heterogeneidade nos níveis etiológico e clínico é um desafio especialmente importante, sobretudo quando consideramos a variedade das apresentações clínicas, que dificulta a rápida identificação e também a elaboração de critérios diagnósticos que possam ser generalizados a partir de um grupo de casos.

Pesquisadores hoje reconhecem o erro causado pela conceitualização muito restrita que foi dada à síndrome de Landau-Kleffner (SLK), o que acabou levando a uma atitude clínica negligente em relação a crianças cujos distúrbios de fala e linguagem não se encaixavam no quadro clássico de agnosia auditiva verbal inicialmente associado à síndrome. Atualmente se conhece uma profusão de histórias clínicas que demonstram como a apresentação das afasias epilépticas pode ser variável e espectral, situando-se dentro de um continuum que vai desde um distúrbio que rompe somente a fluência da fala – causando bloqueios fonatórios intermitentes muito semelhantes aos vistos na Gagueira Persistente do Neurodesenvolvimento (GPND) – até um quadro de mutismo e perda total da capacidade comunicativa.

Essa variabilidade diz respeito não apenas à apresentação inicial, mas também ao curso evolutivo do distúrbio. É comum ver crianças se recuperarem espontaneamente de atrasos no desenvolvimento da linguagem causados por epilepsias remitentes, mas também é muito comum ver a mesma dificuldade reincidir alguns meses ou anos depois. Estudos longitudinais abrangentes poderão esclarecer de forma definitiva essa variabilidade e também a relação causal entre quadros epilépticos insidiosos e distúrbios afásicos do neurodesenvolvimento, explicitando os diversos fatores envolvidos na neurofisiologia das epilepsias, cujos desdobramentos, como se vê, podem ir muito além de quadros convulsivos apenas.

O livro também fala sobre a fronteira bastante fluida que existe entre a SLK clássica e outras epilepsias da infância que trazem repercussões no desenvolvimento da fala e linguagem. Os autores observam que a epilepsia rolândica apresenta uma série de características clínicas compartilhadas com a SLK, embora seu foco esteja localizado na região centro-temporal, enquanto o foco da SLK está localizado predominantemente na região póstero-temporal, apesar de exceções a essa regra não serem impossíveis.

Em meio à abordagem científica rigorosa da natureza e das manifestações clínicas das síndromes afásico-epilépticas, os autores também não perdem de vista as famílias e as crianças cujas vidas podem ser viradas de cabeça pra baixo por uma mudança insidiosa e súbita em sua cognição e comportamento. Nas palavras dos autores: “Como pode um pequeno ser humano conseguir lidar com uma perda repentina e prolongada de capacidade comunicativa enquanto consegue ao mesmo tempo manter habilidades emocionais e intelectuais capazes de adaptá-lo à vida sem que a essência de sua identidade seja aniquilada?”

Os capítulos sobre tratamento medicamentoso, cirurgia e propostas de intervenção educacional são ilustrados com relatos de caso cuidadosamente documentados. O livro finaliza com depoimentos vívidos, em primeira pessoa, sobre o drástico impacto da perda da habilidade comunicativa em adultos tardiamente diagnosticados que cresceram com a síndrome de Landau-Kleffner.

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