Na Gagueira Persistente do Neurodesenvolvimento (GPND), há um lugar do corpo em que a ruptura de fluência da fala chega antes mesmo de ela se manifestar na boca: a laringe.

O funcionamento anormal da laringe na GPND pode incluir paralisia intermitente (bloqueio laríngeo), tensão muscular excessiva e pressão subglotal variável, causada por descoordenação muscular concomitante do trato respiratório. A instabilidade neuromuscular que se verifica no nível da laringe em pessoas com GPND, e que pode ser evidenciada in loco por laringoscopia, afeta o sequenciamento regular da emissão vocal da fala e pode levar a problemas crônicos de voz nessa população.

Apesar disso, quase nenhum estudo tinha investigado especificamente problemas de voz em pessoas com gagueira, e as características vocais dessa população eram praticamente desconhecidas. Devido à escassez de dados e à pesquisa limitada, quatro fonoaudiólogas sul-africanas resolveram avaliar os parâmetros acústicos e perceptivos da qualidade da voz em adultos com GPND, a fim de analisar a extensão das consequências funcionais desse distúrbio sobre o uso da voz.

O que as pesquisadoras descobriram foi surpreendente: além de uma prevalência absurdamente alta (90%) de disfonia entre pessoas com GPND, os resultados também indicaram que uma maior pontuação na escala de severidade da gagueira (conhecida como SSI) resultava simultaneamente em um índice mais grave na escala de disfonia (DSI) – ou seja, quanto pior a gagueira, pior também as alterações funcionais na laringe e o nível de disfonia, provavelmente devido a uma maior instabilidade neuromuscular do sistema fonoarticulatório e também como resultado do maior esforço exigido para falar e se desvencilhar dos bloqueios laríngeos acarretados pela GPND ao longo da vida.

Segundo a OMS, toda condição de saúde precisa ser avaliada de acordo com o conjunto completo de alterações que ela promove no estado funcional do indivíduo. Ao trazer à luz a associação, antes ignorada, entre gagueira e disfonia, este estudo ajudou a descortinar mais uma importante característica fisiopatológica da GPND: a capacidade de elevar expressivamente o risco de disfonia entre pessoas com gagueira para espantosos 90%.

Diante de um percentual tão elevado, até Mara Behlau, a grande czarina da voz na fonoaudiologia brasileira, ficaria surpresa com o tamanho do estrago vocal que a GPND é capaz de provocar.

Para mais informações, acesse o artigo completo (em PDF): Dysphonia in adults with developmental stuttering

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