Legenda da foto: Um dos autores do artigo, o médico neuropsiquiatra Gerald Maguire, pesquisador da Universidade da Califórnia Riverside (UCR), faz gesto simbólico em palestra realizada com o objetivo de desmistificar o tratamento medicamentoso da gagueira persistente do neurodesenvolvimento (GPND), um distúrbio que atinge cerca de 70 milhões de pessoas no mundo e para o qual ainda não há nenhum tratamento médico reconhecido. Projetada sobre sua cabeça, vemos a imagem normalizada do mapeamento funcional do cérebro de um paciente com GPND depois de receber tratamento medicamentoso. Sobre sua mão esquerda, o padrão funcional alterado do cérebro do mesmo paciente antes do tratamento (o paciente em questão poderia ser o próprio Dr. Gerald Maguire, que tem GPND desde a infância). A partir dos resultados verificados em si mesmo, e agora em seus pacientes, seus estudos estão mostrando que é possível reduzir os sintomas do distúrbio a um nível em que ele não mais impeça a pessoa de realizar seus sonhos profissionais, dando-lhe a possibilidade de ter uma vida muito menos desgastante do que teria se não tivesse acesso à terapia farmacológica.

TÍTULO DO ARTIGO

Série de casos sobre a efetividade da lurasidona em pacientes com gagueira persistente do neurodesenvolvimento (GPND)

CONTEXTO

A prevalência da GPND é de aproximadamente 1% da população, afetando cerca de 2 milhões de indivíduos no Brasil, 3 milhões nos EUA e 70 milhões em todo o mundo. A hipótese dopaminérgica da GPND sustenta que uma concentração anormalmente elevada de dopamina no cérebro afeta o equilíbrio neuroquímico necessário para o bom funcionamento dos circuitos dos núcleos da base, responsáveis por gerar as pistas temporais que iniciam e encadeiam os movimentos da fala. Essa hipótese é especialmente significativa quando se buscam estratégias terapêuticas efetivas para a GPND dentro da clínica médica.

Neste artigo, dois médicos relatam uma série de casos em que houve redução marcante da gagueira com o medicamento lurasidona, um potente antagonista dopaminérgico que age sobre receptores D2 e que tem um perfil relativamente favorável de efeitos adversos.

MÉTODOS

Foi realizado um estudo não randomizado e aberto de lurasidona em pacientes com GPND (N = 7). Por meio da Escala de Triagem Subjetiva da Gagueira (SSSS – Subjetive Screening of Stuttering Scale), os pacientes autorrelataram a gravidade da gagueira, o nível de controle que tinham sobre sua fala e suas decisões na vida (lócus de controle), bem como os comportamentos de evitação que usavam para não se expor ao constrangimento causado pela gagueira. Além disso, por meio de outra escala, a Escala de Impressão Global Clínica (CGIS – Clinical Global Impression Scale), os pacientes foram avaliados clinicamente a partir de seus sintomas visíveis.

RESULTADOS

Foi observada uma melhora notável e estatisticamente significativa em todos os aspectos subjetivos da gagueira, conforme avaliação feita pela escala SSS. Ao mesmo tempo, de acordo com a escala de avaliação clínica CGI, dois pacientes foram classificados na faixa de “melhora substancial” e cinco foram classificados na faixa de “melhora considerável”.

CONCLUSÕES

Este estudo aberto de lurasidona em pacientes com GPND mostrou efetividade sobre os sintomas subjetivos associados ao distúrbio, de acordo com os escores da escala SSS, e também sobre os sintomas clínicos objetivos (visíveis), de acordo com os escores da escala CGI.

COMENTÁRIOS

O significado da demonstração de eficácia da lurasidona no tratamento da GPND é especialmente importante dentro da clínica médica porque ainda não há medicação aprovada pelo FDA para tratar este distúrbio tão impactante – e o único tratamento disponível, a terapia fonoaudiológica, tem benefícios limitados a partir de uma determinada idade.

Além disso, a lurasidona já recebeu recentemente aprovação do FDA para tratamento da esquizofrenia em adolescentes. Como a GPND é um distúrbio de fluência que aparece tipicamente até os 12-13 anos, o uso da lurasidona poderia ser estendido a adolescentes com GPND sem maiores objeções, já que ela possui um perfil favorável de efeitos adversos quando comparada a outros medicamentos antidopaminérgicos.

Diante das evidências fornecidas pela análise desta série de casos, o uso da lurasidona em pacientes com GPND deve ser considerado como uma alternativa viável de tratamento dentro da clínica médica.

REFERÊNCIA

Charoensook J, Maguire GA. A case series on the effectiveness of lurasidone in patients with stuttering. Ann Clin Psychiatry. 2017 Aug;29(3):191-194.

CONTATO

University of California, Riverside, School of Medicine, Department of Psychiatry and Neuroscience, Riverside, CA, USA E-mail: gerald.maguire@medsch.ucr.edu

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